O valor irrevogável da ética e da honestidade intelectual

9 (Demo)

No mundo globalizado e cada vez mais interligado em rede, escuta-se frequentemente profissionais da educação e do mundo empresarial falarem sobre a importância de se saber trabalhar em equipe, relacionar-se bem com os outros e com as diferenças. No entanto, ao contrário do apregoado no discurso, o que se observa com força bastante evidente no cotidiano da sociedade é a preponderância do individualismo. Seus sinais são visíveis nas mais diversas situações.

Por exemplo, na dificuldade dos indivíduos construírem laços afetivos, substituídos frequentemente por relações virtuais e fugazes; na avidez por novidades, o que faz tudo (inclusive pessoas) se transformar rapidamente em mercadoria a ser descartada; na proteção excessiva dos pais dos direitos do filho dentro da escola, esquecendo-se que eles aprendem também com os deveres e o respeito aos colegas, aos professores e às regras institucionais; na quebra, sem constrangimento, dos acordos de trabalho e dos vínculos institucionais. Todo esse conjunto de fenômenos presentes, hoje, tem sua origem relacionada a fatores socioeconômicos e políticos que ao longo de décadas vem produzindo mudanças na sociedade e efeitos na subjetividade.

Apesar de imperar esse contexto que atravessa a todos, ser ético e ter honestidade intelectual podem fazer diferença para aqueles que desejam se destacar na vida, inclusive, profissional.

Especialmente a partir do neoliberalismo, vemos surgir um novo homem regido por uma nova lógica – a do consumo – e o valor mercantil começar a ser incorporado como padrão dominante da relação do homem com o mundo. Uma das consequências é que, atualmente, as pessoas têm sido representadas pelas suas posses, pelo que têm, e não pelo que são. Valores como respeito à tradição, à lei, aos limites, às diferenças de lugares e de gerações, cederam lugar ao desejo desenfreado, à satisfação imediata e à busca incessante dos projetos sem esforço.

Esse deslocamento das referências simbólicas como ordenadora social produziu uma fragilidade dos laços sociais e exacerbou o individualismo. As pessoas ficaram desligadas das outras e do mundo. Olham apenas para si, suas necessidades e seus interesses; e procuram nos objetos produzidos pela ciência e pelo mercado (e não nos outros), modos de satisfação.  A ordem da vez é gozar ao máximo, a todo instante, a despeito do outro.

Nesse sentido, as questões éticas foram subestimadas e deixadas a critério de cada um. Segundo Bauman, autor de diversos livros sobre o tema, a modernidade líquida constitui um momento histórico em que todos os freios institucionais desapareceram e foram trocados pelos desejos individuais e a busca autocentrada da felicidade.

Apesar de imperar esse contexto que atravessa a todos, ser ético e ter honestidade intelectual podem fazer diferença para aqueles que desejam se destacar na vida, inclusive, profissional. A ascensão na carreira exige competência técnica, mas igualmente capacidade de construir bons vínculos, ser confiável e transmitir credibilidade. Atributos valorizados e observados nas atitudes cotidianas de saber respeitar o próximo, cumprir os acordos estabelecidos, não falar uma coisa e fazer outra, não dissimular, não prometer algo que pode não cumprir, não omitir o que precisa ser dito, não se apropriar das ideias dos outros, repartir sucessos e fracassos.

Por Sílvia Gusmão

× Fale Conosco